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Terça-feira, 06 de janeiro de 2004 04h24
Fidel e Chávez ameaçam região, dizem EUA
FERNANDO CANZIAN
da Folha de S.Paulo, em Washington

O governo norte-americano considera que Venezuela e Cuba estejam fomentando um sentimento anti-EUA em vários países da América Latina.

Para o Departamento de Estado dos EUA, a estratégia conjunta dos dois países estaria "preocupando os vizinhos na região" e seria financiada com dinheiro do petróleo venezuelano, treinamentos em Cuba e "doutrinação política" popular orquestrada pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, e pelo ditador cubano, Fidel Castro.

Embora a forte oposição de Venezuela e Cuba aos EUA seja conhecida, o Departamento de Estado considera que os dois países agora estejam se organizando para "trocar experiências" e eventualmente infiltrar pessoas e militares em outros países da região.

"Os laços estreitos entre os governos de Venezuela e Cuba têm preocupado de forma crescente os governos vizinhos democraticamente eleitos", disse ontem o porta-voz do Departamento de Estado Adam Ereli.

Os EUA consideram, por exemplo, que o dinheiro e a influência política da Venezuela foram decisivos para a queda, em outubro, do então presidente da Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada, conhecido por suas posições pró-mercados e pró-EUA.

Segundo Washington, pouco antes de sua deposição por movimento popular, Lozada ordenou a expulsão de um adido militar venezuelano que estaria financiando as atividades de oposição do líder cocaleiro boliviano Evo Morales.

Venezuela e Cuba também são suspeitos pelos EUA de dar apoio à guerrilha terrorista colombiana Farc e de financiar atividades que desembocariam no aumento do narcotráfico em solo americano.

Na semana passada, Roger Noriega, secretário-assistente de Estado para as Américas, acusou formalmente Fidel de querer "desestabilizar governos eleitos democraticamente" na América Latina e disse que as atuais atividades do ditador seriam "cada vez mais provocadoras".

Como resposta a esse suposto movimento cubano e como parte da estratégia eleitoral deste ano, o governo de George W. Bush deve anunciar nos próximos meses um relatório detalhando como os EUA pretendem "acelerar a transição de Cuba para um regime democrático". O relatório, supervisionado pelo secretário de Estado, Colin Powell, envolverá vários líderes cubanos exilados na Flórida, Estado onde Bush teve uma vitória decisiva e apertada em 2000 contra o democrata Al Gore.

Os EUA afirmam ainda que Havana teria enviado centenas de médicos, professores e treinadores de atividades esportivas para a Venezuela com o duplo objetivo de ajudar o governo de Chávez e promover doutrinação política.

Ontem, o chefe da comissão de Relações Exteriores do Congresso venezuelano, Tarek Saab, qualificou as novas insinuações contra Chávez como sendo "falsas, irresponsáveis e covardes".

Consultado pela Folha de S.Paulo, um funcionário do Departamento de Estado afirmou que, apesar da aproximação entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e Fidel Castro e da simpatia do petista por Chávez, o Brasil não é visto como conivente com a suposta ação os dois países.

Para o funcionário, a oposição brasileira aos EUA é "pontual e diplomática", como na questão das negociações da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e no posicionamento do Brasil contrário à Guerra do Iraque.

Em abril do ano passado, os EUA chegaram a insinuar que Chávez estaria dando apoio a uma base da rede terrorista Al Qaeda na ilha Margarita, na Venezuela. Reportagens publicadas na época em jornais britânicos afirmavam que a ilha, um balneário que abriga uma grande comunidade muçulmana, seria um centro de lavagem de dinheiro e de levantamento de fundos para atividades terroristas.

Mais recentemente, o general James Hill, chefe de operações do Comando Sul dos EUA, voltou a citar a ilha Margarita e afirmou que Chávez tornou-se "mais um problema". Bush e Chávez devem se encontrar na semana que vem, no México, durante reunião de cúpula da OEA (Organizações dos Estados Americanos).


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