| | | Notícias > | | | Quinta-feira, 03 de abril de 2003 06h45 Só democracia garantiria unidade do Iraque, diz professor JOÃO BATISTA NATALI da Folha de S.Paulo
O nacionalismo árabe relegou ao segundo plano a idéia de democracia. O Iraque, após a atual guerra, terá a chance singular de provar que só o regime democrático manteria sua unidade territorial, por meio de uma federação em que os direitos comunitários de sunitas, xiitas e curdos estariam assegurados.
É o que diz Adeed Dawisha, 58, iraquiano e professor numa universidade de Ohio (EUA). Ele é o autor de "Arab Nationalism in the 20th Century" (Nacionalismo Árabe no Século 20), lançado nos Estados Unidos pela Princeton, no qual argumenta que o projeto de unidade política entre árabes do Oriente Médio capotou por razões internas, e não por força de interesses ocidentais.
Folha - A seu ver, a identidade religiosa no mundo muçulmano é mais importante que o nacionalismo. Isso explicaria o fato de no Irã _que não é árabe, mas persa_ serem tão imensas as manifestações de rua em favor do Iraque? Adeed Dawisha -Todos os países da região estão preocupados com o poder político e militar dos EUA. Não há mais o contrapeso soviético. Com a atual guerra, o temor aos americanos passa a eclipsar outras dimensões em jogo, como a tirania de Saddam e os perigos que ele representaria caso permanecesse governando. Essa cegueira prevalece também no Irã, onde Saddam é detestado pela guerra de oito anos contra aquele país, que fez 1 milhão de mortos.
Folha - A unidade contra o "inimigo comum" foi testada na Guerra de 1948, da qual nasceu Israel. O mesmo estaria ocorrendo agora? Dawisha - Neste momento não há dúvidas de que a percepção de uma "agressão estrangeira" alimente o sentimento antiamericano. Enquanto a guerra durar, não há como argumentar em sentido contrário. Mas tudo depende do que ocorrer depois. Caso os EUA consigam estabilizar o Iraque e isso se traduza em democracia e bem-estar econômico, haveria uma reviravolta na percepção.
Folha - Mas o sr. mesmo escreveu que a idéia de democracia nunca fez parte da agenda política do nacionalismo árabe. Dawisha - Argumento em meu livro que a ética nacionalista árabe nunca considerou a democracia. Mencionam-se mais independência, soberania e antiimperialismo. As lideranças árabes dos anos 40 aos 60 procuraram construir sociedades menos dependentes de modelos ocidentais. Surgiram figuras autoritárias, que acreditavam poder agarrar seus povos pelo pescoço e transportá-los aos progressos do século 20.
Folha - Há 85 anos os britânicos provocaram rebelião ao impor a democracia ao Iraque. Bush não correrá agora o mesmo risco? Dawisha - A idéia de democracia e as lideranças que dela nasciam eram associadas ao colonialismo britânico. Mas o Iraque não havia experimentado a tirania. Agora muitos se lembram que a monarquia era mais humana. Saddam trouxe uma visão de contraste com uma ordem política que respeitava a sociedade civil. Se os americanos forem "espertos", ouvirão a sociedade iraquiana.
Folha - Haveria ainda interlocutores locais para tanto? Dawisha - Há no Iraque uma classe média altamente instruída. O Iraque não é o Afeganistão, onde a política depende da conveniência dos senhores feudais permanentemente em guerra.
Folha - Os governantes dos países vizinhos temeriam a possibilidade de sucesso da democracia? Dawisha - Não há nisso nada de errado, é o cenário ideal. Se encorajarmos o Iraque a construir a democracia, e se ela prosperar, passará a ser um modelo.
Folha - A democracia não ameaçaria a unidade do Iraque? Dawisha -Estou publicando no próximo "Foreign Affairs" artigo sobre a questão. Creio que apenas um sistema federal e democrático manteria a unidade iraquiana, com a descentralização do poder hoje exercido por Bagdá e com os grupos internos obtendo uma participação política que lhes é negada desde 1921.
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