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Quinta-feira, 03 de abril de 2003 08h23
Editorial: Imprensa cega
da Folha de S.Paulo

A guerra que George W. Bush declarou ao Iraque aspergiu uma névoa de "patriotismo" sobre os EUA, o que tem levado a outrora independente imprensa norte-americana a fazer uma cobertura do conflito que não honra suas tradições.

A maré nacionalista vem desde o 11 de setembro de 2001, mas com a guerra atingiu o paroxismo. Os pontos negativos da cobertura não se limitam ao clima de torcida que tomou conta dos principais canais de TV do país, tendo chegado a afetar os fundamentos do bom jornalismo que parte da imprensa norte-americana ensinou o mundo a cultivar.

Mesmo agora, quando reveses militares das forças anglo-americanas dão margem às primeiras críticas, elas estão quase que inteiramente centradas na condução da guerra, sem questionar sua oportunidade ou legitimidade, ao contrário do que vem fazendo o resto do mundo.

Seria exagero falar em censura. Bons órgãos de mídia dão voz a opositores da guerra, mas parece evidente que o clima que toma conta da imprensa de um modo geral não favorece a independência. É emblemática a esse respeito a demissão de um correspondente da NBC, por conceder entrevista à TV iraquiana afirmando que o Pentágono cometeu erros.

Alguns jornais, como "The New York Times", tiveram a coragem de, em editoriais, posicionar-se contra o conflito, mas nem por isso seus textos escapam à pasteurização e ao tom pró-bélico que marca a cobertura desta segunda Guerra do Golfo.

A tendência é que, com o tempo, passe a cegueira provocada pelo nacionalismo e pela propaganda. O fato de os jornais já questionarem os planos militares é de certo modo reconfortante. Talvez dentro de mais algum tempo a parcela mais informada dos norte-americanos possa acessar o outro lado dessa guerra, mais sangrento e difícil de justificar.

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