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Terça-feira, 08 de abril de 2003 08h46
Editorial: Um papel para a ONU
da Folha de S.Paulo

As forças da coalizão anglo-americana vão fazendo progressos no Iraque. O objetivo primordial da invasão, desfechar um golpe de Estado contra o regime de Saddam Hussein, não parece muito distante. Os dois senhores da guerra, o presidente George W. Bush e o premiê Tony Blair, já se reúnem para discutir a "reconstrução" do Iraque.

A exemplo do que se passou nas negociações diplomáticas anteriores ao conflito, existem divisões entre EUA e Reino Unido e mesmo entre os principais auxiliares de Bush.

Blair, como os países europeus, defende um importante envolvimento da ONU no pós-guerra. Bush e seus secretários estão mais inclinados a aprovar uma administração norte-americana na qual iraquianos de oposição teriam alguma voz.

A divisão interna na Casa Branca mais uma vez opõe o grupo dos "falcões" que gravitam em torno do vice-presidente Dick Cheney e do secretário de Defesa Donald Rumsfeld ao secretário de Estado, general Colin Powell, tido como um moderado com tendências multilateralistas.

Powell, embora não advogue por um papel muito relevante para a ONU, afirma que ela é o único órgão capaz de emprestar legitimidade à administração pós-Saddam. Os "falcões", para os quais a legitimidade não parece ser um conceito relevante, defendem que a gestão americana tenha início já nos próximos dias.

A tendência, pelo menos por ora, é a de que a posição dos "falcões" prevaleça. Muitos deles são ligados às empreiteiras e empresas petrolíferas que seriam beneficiadas com lucrativos contratos por uma administração americana. Guerras costumam proporcionar excelentes oportunidades para transformar gastos públicos em rendimentos privados.

Cabe a países como o Brasil pressionar para que a ONU seja a protagonista da "reconstrução". A organização, que já foi amesquinhada por Bush na deflagração do conflito, é única instituição capaz de emprestar alguma legitimidade à administração pós-guerra.

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