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Quarta-feira, 16 de abril de 2003 12h49
Guerra deixa perguntas sem resposta, diz "The Independent"
da Folha Online

O jornal britânico "The Independent" publicou hoje uma reportagem em que afirma que várias questões ainda esperam resposta no que diz respeito à guerra no Iraque.

"O Iraque perdeu. Saddam [Hussein, ex-ditador do Iraque] foi deposto. Mas, depois de 27 dias de guerra, pouco mais do que isso já foi resolvido", afirma o jornal.

Veja a seguir quais são as perguntas que, de acordo com o "Independent", ainda esperam uma resposta:

Onde estão as armas de destruição de massa?

Comentando que até agora nem os Estados Unidos nem os inspetores de armas da ONU (Organização das Nações Unidas) acharam nenhuma dessas armas no Iraque, o jornal diz que a verdadeira pergunta deveria ser "Será que havia alguma"?

Onde está Saddam Hussein?

Reuters - 4.fev.2003
Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque
Não se sabe se ele de fato morreu, e há até rumores que dizem que o ex-presidente iraquiano está na Belarus. Mas o "Independent" diz que a falta de informações a respeito de Saddam está alimentando o temor dos iraquianos -inclusive o de que os Estados Unidos estariam planejando reinstalá-lo no poder.

O que há sobre as supostas ligações do Iraque com a Al Qaeda?

Apesar de metade dos americanos achar que os dois estão ligados, o jornal diz que os esforços dos Estados Unidos e do Reino Unido não trouxeram nenhuma evidência de que o Iraque estivesse envolvido em alguma atividade da Al Qaeda.

O que aconteceu com o movimento antiguerra?

O "Independent" argumenta que o sucesso da guerra não a torna justificada e que, apesar de agora estarem em dificuldades, os governos da França e da Alemanha seguem preocupados com o fato de que os Estados Unidos parecem dispostos a impor a democracia à força em outros países, como a Síria. "Falando nisso, quem se preocupa com o povo oprimido de Mianmar (Ásia meridional)?", pergunta o jornal.

Como o primeiro-ministro Tony Blair emergiu desta polêmica?

Reuters - 24.02.2003
Tony Blair, primeiro-ministro do Reino Unido
O jornal diz que Blair sai fortalecido, e seus aliados agora torcem para que ele mostre a mesma determinação em enfrentar a opinião pública para implantar as espinhosas reformas do setor público britânico. Mas também que Blair vai querer mostrar que não é o "poodle" de George W. Bush.

Como fica a União Européia após o conflito iraquiano?
O bloco sai profundamente dividido e resta ver quem vai emergir como a "nova" e a "velha" Europa, como disse o secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld.

O que aconteceu com os escudos humanos?

Alguns foram embora do Iraque nos primeiros dias da guerra, outros tiveram atritos com as autoridades iraquianas. No final, nenhum morreu.

Os iraquianos se sentem libertados?

O jornal diz que em um primeiro momento houve um sentimento ambivalente entre os iraquianos. Com o caos e a escassez que vêm reinando desde o fim do regime, esse sentimento está se transformando em hostilidade contra os americanos.

Será que Ahmed Chalabi é apenas um "lacaio malandro" dos americanos?

O polêmico líder oposicionista é malvisto no interior do Iraque, mas admirado por figuras como Donald Rumsfeld e Dick Cheney. Por isso deverá ter muita influência no futuro do país.

A ONU continua sendo relevante?

O "Independent" diz que, a fim de lidar com outros países como o Irã ou a Coréia do Norte, os Estados Unidos devem voltar a trabalhar com a ONU. Mas a entidade pode assumir uma nova forma -eliminando, por exemplo, o poder de veto da França e do Reino Unido no Conselho de Segurança.

Que chances há de uma revolução xiita no Iraque ao estilo da que ocorreu no Irã em 1979?

Poucas, segundo o jornal. Porém os xiitas, que constituem 60% da população iraquiana, podem acabar implantando um governo teocrático por meio das urnas.

Quem foram os verdadeiros responsáveis pelos bombardeios de duas regiões comerciais em Bagdá?

O jornal diz que as evidências apontam para os americanos, apesar de eles terem tentado culpar o Iraque.

A opinião pública mudou desde o começo da guerra?

Americanos e britânicos se mostraram mais favoráveis ao conflito e mais satisfeitos com seus governos desde 20 de março. Mas o "Independent" diz que o triunfo de Bush e Blair pode ter vida curta, especialmente devido à situação da economia.

A Coréia do Norte é a próxima da lista de alvos dos americanos?

O jornal diz que os norte-coreanos prometem uma oposição mais dura do que o Iraque e que os EUA devem tentar buscar uma solução diplomática para suas desavenças com Pyongyang.

Por quanto tempo serão mantidos os soldados americanos e britânicos no Iraque?

Não é possível deixá-los lá por muito tempo. O Reino Unido fala em seis meses no máximo.

Há uma crise humanitária no Iraque?

Na verdade, há várias. Comida e água estão em escassez e serviços como hospitais não conseguem funcionar direito. Os combates agravaram a situação que já era ruim após 12 anos de sanções da ONU.

A coalizão dos EUA seguiu sempre a Convenção de Genebra em seus ataques?

O jornal diz que não - por exemplo, ao bombardear áreas residenciais e usar bombas de fragmentação contra civis.

Este pode ser o primeiro passo para mudar a ordem atual no Oriente Médio?

Pode até ser, diz o "Independent" -desde que Washington, "jamais notável por sua paciência", dê tempo para o Iraque achar o seu caminho. O uso de força militar contra outro país, como a Síria, parece improvável no futuro próximo.

Quantas pessoas morreram no conflito?

Entre os soldados, 119 americanos, 30 britânicos e mais de 3.650 iraquianos, de acordo com estimativas dos EUA. Entre os civis, pelo menos 115 no bombardeio de duas áreas comerciais de Bagdá e 14 em uma tentativa de matar Saddam Hussein em um restaurante no distrito de Mansur.

Os contratos para reconstruir o Iraque vão acabar nas mãos de capangas da Casa Branca?

A princípio, diz o jornal, os EUA parecem dispostos a deixar de fora até mesmo empresas britânicas.

A guerra foi justificada do ponto de vista legal?

Americanos e britânicos dizem que a ação militar já havia sido autorizada pela resolução 1441 da ONU. Outros membros do Conselho de Segurança contestam esta interpretação.

Por que a Guarda Republicana não ofereceu muita resistência?

Alguns analistas dizem que as tropas de elite de Saddam simplesmente desistiram de lutar; outros, que elas foram enfraquecidas pela repressão feita pelo próprio ex-presidente. Há até quem diga que seus comandantes foram subornados pelos americanos.

Os curdos iraquianos vão lutar por um Estado próprio?

O jornal diz que não, devido às pressões de países como a Turquia, o Irã e a Síria.

A "doutrina Rumsfeld" foi comprovada pela vitória americana?

Alguns dizem que sim. A força militar usada pelos americanos foi bem menor do que em 1991. Mas ainda assim foi 30% maior do que o secretário da Defesa queria.

Quem estava na coalizão dos EUA?

Os EUA dizem que havia 50 países. Mas só três - Reino Unido (45 mil soldados), Austrália (2.000) e Polônia (menos de 100) contribuíram com efetivos. Outros países, como Qatar, Bahrein e Arábia Saudita, permitiram o uso de infra-estrutura como bases militares. A contribuição da maior parte da coalizão segue sendo um mistério, a não ser que seja incluído "apoio moral".

Qual foi o verdadeiro motivo da guerra

Há várias teorias conspiratórias. Alguns dizem que o que está por trás de tudo é Israel; para outros, o petróleo foi a causa real, e um grupo culpa as eleições americanas do ano que vem. O "Independent" diz que isso tudo é besteira: para o jornal, Bush havia decidido atacar o Iraque desde os atentados de setembro de 2001, e talvez até antes disso.

Com agências internacionais

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