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Quarta-feira, 16 de abril de 2003 16h12
Onda de boicote nos EUA já começa a incomodar franceses
JOÃO NOVAES
especial para a Folha Online, em Paris

Uma punhalada nas costas. Esta é a opinião de 54% dos americanos entrevistados em uma pesquisa encomendada pela rede de televisão CNN e o jornal "USA Today", publicada no início do mês em relação à oposição tomada pelo presidente francês Jacques Chirac, 71, no conflito contra o Iraque.

Uma quantidade ainda maior, de 66%, afirma ter uma imagem negativa da França. Esse fenômeno, já apelidado pela imprensa francesa de "francofobia" tem se manifestado através de diversos movimentos não-oficiais de boicotes a produtos franceses em território americano.

Até o momento, nenhum contrato foi anulado, nem qualquer parceria foi desfeita, mas o fato já incomoda empresas e investidores franceses com capital nos EUA.

A prova foi a dura declaração feita ontem por Ernest Antoine Seillière, 66, presidente da Medef (Movimento das Empresas da França), entidade que representa mais de 750 mil empresas de todo o país. Ele admitiu, em entrevista à Folha Online, uma retração dos investimentos franceses nos EUA, mas espera que o fenômeno seja provisório.

"Contratações de novos empregos estão sendo canceladas, a venda de certos produtos diminuiu e até se aconselha aos empresários franceses postergar ou mesmo cancelar investidas no território americano". Um discurso muito diferente da coletiva realizada no mês passado, quando afirmava: "Até agora, tudo vai bem".

O assunto está sendo tratado com muito cuidado. Em nenhum momento o termo "boicote" foi mencionado. Seillière se recusou a fazer qualquer outro comentário sobre o assunto, mas deu uma sugestão aos "francofobos":

"Misturar opiniões a respeito da diplomacia francesa, que trata de assuntos entre Estados, com nossos produtos e serviços, é injusto e incoerente. Aos que estão descontentes com nossa diplomacia, que enviem telegramas às embaixadas, mas não ataquem nossos perfumes, iogurtes e aviões, isso não faz qualquer sentido".

Vigilância

Segundo uma fonte do Ministério da Economia, Finanças e Indústria da França, o mais conveniente no momento é que os governos interfiram o mínimo possível na questão, o que não significa que não se deve ficar atento com o desenrolar da situação, ao contrário, é importante ficar em constante vigilância.

Segundo a fonte do ministério, que como o restante dos funcionários trata o assunto como um tabu e preferiu não ter seu nome revelado, há três razões para que as empresas francesas não sejam lesadas no futuro.

A principal delas é que boa parte das empresas francesas possui subsidiárias americanas e, portanto, a maioria de seus funcionários é americana.

Outra causa seria a não existência de nenhum apelo oficial de Washington incentivando represálias. E, por último, o fato de que, da mesma forma que existem ações populares anti-francesas, também há pessoas cientes de movimentos anti-boicote.

Investimento francês

Segundo dados do Centro de Relações Transatlânticas da Universidade John Hopkins, em Baltimore, em Maryland, os EUA, com cerca de 650 mil empregados, é o país que comporta o maior número de assalariados contratados pelas empresas francesas. Ademais, os EUA também abrigam a maior quantidade de empresas com capital francês:1850, no total. Atualmente, a França é o quinto principal investidor estrangeiro nos EUA.

O boicote direto contra produtos franceses nos EUA, até agora, aparece de forma isoldada e na internet, como no site www.fuckfrance.com , e tentam desencorajar o consumo de produtos tradicionais, como queijos e vinhos.

No entanto, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores francês, a agricultura é responsável por menos de 5% das exportações da França para os EUA.

Em 2002, os US$ 28 bilhões obtidos pela França em negociações com os americanos vieram de setores com contato menos direto com o público, como a indústria aeronáutica, farmacêutica, química e eletrônica.

De acordo com uma pesquisa realizada no mês passado pelo Instituto de Comunicação Fleishman-Hillard, em Saint Louis (Missouri, EUA), 64% dos mil americanos consultados se disseram menos encorajados a consumir produtos franceses, enquanto 46% consideram a possibilidade de procurar alternativas a esses produtos

No entanto, apenas 25% dos entrevistados foram capazes de citar espontaneamente uma marca ou empresa francesa presentes no mercado.

Apoio

Uma das poucas manifestações políticas favoráveis à França foi tomada por Michael Nelson, prefeito de Carrboro, uma pequena cidade do Estado da Carolina do Norte, cuja população é majoritariamente liberal (nos EUA, o mais próximo do conceito de esquerda).

A Câmara de Vereadores da cidade aprovou, por unanimidade, uma resolução transformando o mês de abril como "o mês do comércio com a França".

"Sabemos que é uma decisão um tanto polêmica nos dias de hoje, mas a assumiremos plenamente", afirmou Nelson ao jornal francês "Libération" na edição do dia 7 de abril.

Segundo ele, a população, formada principalmente por estudantes das universidades vizinhas de Duke e da Carolina do Norte, reagiu bem à medida. Porém, Nelson admite ter recebido muitos e-mais hostis dos habitantes de cidades próximas.

A Associação de Comércio Municipal de Carrboro também expressou reprovação à medida. Em nota oficial à Prefeitura, a associação considera "um equívoco que a Prefeitura não incentive os produtos locais em um momento econômico tão difícil".

A entidade teme que a cidade passe também a ser boicotada se sua imagem for associada à França.



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