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Segunda-feira, 19 de janeiro de 2004 06h22
Rede traça retrato farmacológico do Brasil
REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S.Paulo

Cientistas em 25 grupos de pesquisa, do Rio Grande do Sul ao Pará, estão unindo forças para entender como o DNA dos brasileiros influencia a resposta aos medicamentos. Espera-se que os dados permitam chegar o mais perto possível de uma forma personalizada de medicina. A meta é selecionar a dose e o tipo do remédio com base na química do organismo do doente.

"Numa população tão miscigenada quanto a nossa, extrapolar dados de populações etnicamente mais definidas é perigoso", afirma o médico Guilherme Suarez-Kurtz, da Coordenação de Pesquisa do Inca (Instituto Nacional de Câncer), no Rio de Janeiro. O pesquisador coordena a rede de farmacogenômica (como é denominado o estudo da interação entre o genoma e os medicamentos), que atua em conjunto desde a metade do ano passado.

O conceito principal que sustenta os estudos farmacogenômicos é o de que a imensa maioria das dosagens de medicamentos são simplificações um tanto grosseiras. Isso porque elas são calculadas para funcionar na maior parte da população, mas podem ser excessivas ou insuficientes em diversos casos.

Declaração polêmica

Embora seja de conhecimento amplo entre cientistas e pesquisadores, essa limitação não era difundida em meio à população, mesmo de países mais desenvolvidos, até o início de dezembro.

No dia 9 desse mês, ela se tornou pública na forma de uma declaração de enorme repercussão de Allen Roses, chefe do setor de genética da gigante farmacêutica britânica Glaxo Smith Kline. Segundo ele, mais de 90% dos remédios "só funcionam para 30% a 50% das pessoas".

Um dos principais fatores que influenciam a eficácia dos remédios seria o genético. Variantes individuais do mesmo trecho de DNA poderiam fazer com que o organismo de um doente absorvesse rápido demais ou muito devagar um determinado medicamento, o que exigiria doses maiores ou menores. Em alguns casos, seria totalmente ineficaz ou mesmo letal dar certo medicamento a um segmento da população.

O grupo étnico a que uma pessoa pertence teria certo papel nisso, já que os povos do planeta estiveram sujeitos a ambientes e doenças distintos ao longo dos milênios --e se adaptaram a eles por meio de alterações bioquímicas sutis. Um exemplo disso é o gene ligado à anemia falciforme, que protege povos africanos e do Mediterrâneo contra a malária, mas também os deixa sujeitos a essa forma de anemia.

Variabilidade complicada

A coisa se torna ainda mais complicada quando se considera o histórico de mistura étnica da população brasileira. "Muitos trabalhos têm mostrado claramente que no Brasil o fenótipo [a aparência] não representa a herança genética", diz Marco Aurélio Romano-Silva, psiquiatra da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e integrante da rede de farmacogenômica.

Na prática, isso significa que uma pessoa de pele branca pode muito bem ter um perfil genético (e uma resposta a medicamentos e doenças) mais parecido com o de pessoas de origem africana ou indígena. Para Romano-Silva, uma das maneiras de estimar melhor o perfil genético real de um paciente seria usar marcadores como o DNA mitocondrial (só transmitido pelo lado materno) e o cromossomo Y (pelo paterno), que costumam ter associação estreita com os grupos étnicos.

Mesmo assim, algumas surpresas já têm aparecido, como num trabalho do Inca sobre variantes do gene CYP2C9, que especifica uma proteína que ajuda o organismo a metabolizar antiinflamatórios. "Nesse caso, a população negra brasileira se mostrou mais parecida geneticamente com a africana do que com a norte-americana, algo que nos surpreendeu um pouco, já que lá também teria havido miscigenação", afirma Suarez-Kurtz.

Outro trabalho, com a participação de Romano-Silva e de colegas da UFMG e da USP de Ribeirão Preto, mostrou que 9,3% de 202 pacientes brasileiros tinham versões mutantes do gene TMTP, envolvido, por exemplo, no metabolismo de medicamentos contra doenças como leucemia.
O gene pode ter sua função prejudicada (se a pessoa tiver uma cópia das versões mutantes) ou totalmente inativada (se ela tiver duas cópias) --de forma que os medicamentos passam a ter efeito tóxico em vez de positivo. "Se você puder verificar isso no paciente, está eliminando esse risco", afirma Romano-Silva.

Os pesquisadores dos diferentes grupos que formam a rede já vêm trocando experiências sobre as áreas que pesquisam.

Aids

O principal objetivo em comum, delineado em duas reuniões com o MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia), é analisar a resposta da população brasileira aos medicamentos anti-retrovirais, principais armas contra a Aids. "Avaliamos que isso teria um impacto não só científico, mas também social e econômico", diz Suarez-Kurtz.

Os projetos sobre o tema foram apresentados ao ministério e tiveram seus recursos estimados em cerca de R$ 2 milhões no final do ano passado. A expectativa dos pesquisadores é que a reunião dos grupos de trabalho do MCT, prevista para o final do mês que vem, dê o sinal verde para a idéia. "Enquanto isso, continuamos trabalhando com nossos financiamentos independentes", afirma Guilherme Suarez-Kurtz.

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