| | Segunda-feira, 14 de junho de 2004 03h40 Pesquisadores desenvolvem batata light MARCUS VINICIUS MARINHO free-lance para a Folha de S.Paulo
Enquanto os biotecnólogos usam a engenharia genética para criar alimentos mais nutritivos, outros pesquisadores lançam mão de métodos tradicionais para empobrecê-los caloricamente: uma empresa holandesa e cientistas americanos desenvolveram uma batata light, com 30% menos carboidratos. O produto deve estrear nos supermercados americanos já em 2005.
O produto é conseqüência da febre nos EUA ao redor da famigerada dieta Atkins, que prescreve uma redução drástica no consumo de carboidratos (como o amido da batata ou açúcares) e o aumento da ingestão de proteínas.
Não coincidentemente, a batata "low-carb" parece ter sido desenvolvida para esse tipo de mercado: além de menos amido, tem mais proteínas e fibras alimentares que uma batata normal, o que resulta em 28% menos calorias.
"Testamos essa batata por cinco anos consecutivos e acreditamos que ela esteja pronta para entrar no mercado", diz Chad Hutchinson, agrônomo especialista em batatas da Universidade da Flórida, nos EUA, e um dos responsáveis pelo projeto. "Testo cerca de 400 variedades de batata por ano, e essa realmente salta aos olhos."
A batata light foi desenvolvida utilizando métodos convencionais de seleção. Ela não é geneticamente modificada, mas envolveu uma grande operação: para chegar à batata desejada, os pesquisadores tiveram de examinar centenas de milhares de plantas, procurando por mais de 80 características físicas e genéticas relacionadas a rendimento, aparência e sabor.
Segundo os pesquisadores, o resultado final, além de ser uma possível saída para a recuperação do mercado de batatas americano --que andava em crise--, também traz benefícios para os agricultores que cultivarem a batata.
"Essas batatas precisam de menos adubo e levam menos tempo para crescer que as normais, o que é uma vantagem para o agricultor, já que elas ficam menos expostas aos fatores climáticos", diz Hutchinson. Os novos tubérculos levam 65 dias para crescer, bem menos que os até cem dias necessários para a maior parte das variedades da planta disponíveis.
Os executivos da companhia holandesa, a HZPC (www.hzpc.com), elencam outras qualidades: "A casca dessa variedade de batata se desenvolve mais rápido, o que aumenta a resistência ao dano mecânico. As batatas chegam às prateleiras com defeitos mínimos", diz Don Northcott, gerente de marketing da companhia.
As batatas, um pouco mais amarelas que as comuns, têm um sabor ligeiramente diferente, e podem ser preparadas de todas as formas --fritas, cozidas ou processadas industrialmente.
"Embora as batatas não sejam parte da dieta Atkins, podem vir a ganhar esse mercado. Além de tudo, elas contêm as vitaminas C e B6 e têm pouco sódio e bastante potássio", diz Hutchinson.
Se são boas de comer? Os cientistas dizem que sim. "Elas têm um sabor realmente bom e único", afirma o agrônomo, que, apesar de mexer com batatas o tempo todo, diz ser um fã dos tubérculos.
"É claro que uma pessoa como eu tem de amar batatas", afirma. "Chego a ficar meio enjoado delas quando estamos na temporada. Agora, quando ela acaba, como muita batata mesmo e adoro... Gosto delas assadas e com azeite, alho, sal e pimenta."
Os interessados em ver a batata light no Brasil, no entanto, terão de esperar. Uma cooperativa de produtores de batata da Flórida licenciou o produto com exclusividade e, no momento, pensa apenas no mercado americano.
"A América do Sul é um mercado interessante, mas ainda não temos contato com nenhuma companhia que queira abrir conversações comerciais", diz Northcott.
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