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Segunda-feira, 05 de julho de 2004 09h10
Bactérias também respeitam ciclos diários, diz estudo
MARCUS VINICIUS MARINHO
free-lance para a Folha de S.Paulo

Bactérias com "jet lag"? Uma contradição em termos. O relógio biológico, acreditava-se até hoje, parecia depender de um mecanismo tão complexo que só poderia ser alcançado por meio do trabalho de muitas células.

Agora, um estudo de cientistas da França e dos EUA pode levar a ciência a rever a concepção de relógio natural: eles descobriram que o delicado mecanismo do ciclo diário pode estar contido até mesmo em uma pequena bactéria unicelular.

O trabalho, liderado pela equipe de Irina Mihalcescu, da Universidade Joseph Fourier, na França, percebeu a ocorrência do ritmo biológico diário em células isoladas da espécie de cianobactéria Synechococcus elongatus --um tipo de alga unicelular azul-esverdeada. Embora já se soubesse que determinados ciclos de funcionamento de genes (o "relógio interno") podiam ser vistos em populações de células unicelulares, acreditava-se que isso fosse propriedade do conjunto de células.

"O relógio circadiano controla a expressão da maior parte dos genes desse organismo e, assim, muito de sua fisiologia e comportamento", disse à Folha a romena Mihalcescu, 37. "É impressionante ver que esse mecanismo cabe em um organismo tão pequeno."

Para ver os ciclos biológicos nas bactérias, a equipe de Mihalcescu criou cianobactérias transgênicas com um sistema de bioluminescência grudado em seus cromossomos. Assim, quando um determinado conjunto de genes fosse ativado, os cientistas poderiam ver o brilho levemente azul das substâncias que inseriram e verificar se apareciam ciclos de duração aproximada de um dia.

Como observar a luz emitida por uma célula pouco maior que um centésimo da largura de um fio de cabelo? Mihalcescu e sua equipe --cuja especialidade é a espectrometria física de sistemas biológicos-- utilizaram um sistema de microscópio eletrônico conhecido como CCD (sigla em inglês para dispositivo acoplado de carga) de alta eficiência.

O aparelho de nome complicado é tão bom que conseguia medir os 10 a 20 fótons (partículas de luz) que uma única célula transgênica dessas emite por minuto.

A partir daí, ficou fácil: os cientistas estudaram células individuais e sua progênie (as "filhas") e viram, além dos ciclos de luminescência de cerca de 24 horas, que nem a reprodução interferia nos relógios das bactérias. Assim, as "filhas" começavam de onde suas células-mãe tinham parado.

"Não podemos estender de imediato essa conclusão de que uma célula sozinha pode conter um relógio circadiano para todas as outras espécies que têm ciclos", diz Mihalcescu. "Mas mesmo mamíferos devem ter algum tipo de oscilador em nível intracelular."

Carl Hirschie Johnson, biólogo da Universidade Vanderbilt (EUA) responsável por comentar o artigo para a revista "Nature" (www.nature.com), afirma que é preciso ter cautela. "Agora sabemos que o ciclo circadiano pode existir mesmo em células isoladas, mas cada caso é um caso."

Johnson, que também pesquisa ciclos circadianos em microorganismos, diz ter ficado surpreso com a descoberta. "Realmente pensávamos que era algo coletivo. Agora vemos que não é tão impossível assim que as bactérias também tenham "jet lag" ", diz.

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