| | | Notícias > | | | Sexta-feira, 14 de janeiro de 2005 10h14 Estudo nega evidência mais velha da vida CLAUDIO ANGELO da Folha de S.Paulo
Em 1996, uma rocha encontrada na inóspita Groenlândia ganhou fama e causou polêmica por supostamente abrigar os traços mais antigos da vida na Terra: cristais de carbono orgânico datados de 3,8 bilhões de anos atrás.
Agora, um grupo de cientistas acaba de pôr uma pedra em cima do assunto --por assim dizer. Eles analisaram novamente a amostra e constataram que o carbono simplesmente não está lá.
O resultado da análise, publicado na edição deste mês do periódico "Geology", aparentemente encerra a controvérsia em torno das famosas rochas de Akilia, Groenlândia. E deve obrigar os autores do trabalho original a pedir desculpas por um erro que já foi incorporado a vários livros de geologia.
De certa forma, o novo estudo já é uma retratação por parte de um dos autores: o geoquímico sueco Gustaf Arrhenius, da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA).
Sua análise original das rochas de Akilia, assinada juntamente com seu então aluno de doutorado Stephan Mojzsis, foi parar na capa da revista "Nature", um dos principais periódicos científicos do mundo. Arrhenius é também co-autor do novo estudo, liderado por Aivo Lepland, do Serviço Geológico da Noruega.
Evidências muito antigas de vida são uma espécie de Santo Graal para os cientistas que se dedicam a resolver o maior mistério do planeta: quando e como a Terra começou a ser habitada. Os fósseis costumam ser preservados nas chamadas rochas sedimentares, formadas pela lenta acumulação de areia, lama ou outros sedimentos em presença de água.
Acontece que a Terra é uma imensa panela, onde rochas são espremidas, cozidas e distorcidas o tempo todo. Essa transformação acaba destruindo os fósseis. Em rochas muito antigas, o máximo que se pode obter são assinaturas, ou evidências indiretas, da presença de organismos --substâncias que só poderiam ter sido produzidas por um ser vivo.
Grafite
Até então, os fósseis mais antigos descobertos eram de bactérias de 3,5 bilhões de anos da Austrália e da África do Sul. Mas uma evidência indireta foi supostamente encontrada nas amostras 300 milhões de anos mais velhas de Akilia. Nelas Mojzsis detectara pequenos cristais de grafite associados a apatita, um mineral composto de cálcio e fosfato.
O fosfato é um dos componentes principais da matéria orgânica. Durante a transformação de uma rocha, ele é separado do carbono (material básico dos seres vivos) e pode formar apatita. Os restos de carbono, submetidos a alta temperatura e pressão, acabam se transformando em grafite, que fica incrustado na apatita.
A detecção dos minúsculos cristais de grafite fora possível graças a um instrumento chamado microssonda de íons. "Não tínhamos esse aparelho aqui, então mandei Mojzsis à Universidade da Califórnia em Los Angeles para fazer o trabalho", lembra Arrhenius (neto de Svante Arrhenius, descobridor da eletrólise e Nobel de Química de 1905). "As pessoas que coordenavam o aparelho na época supostamente deveriam ter supervisionado o trabalho dele."
A "Nature" aceitou o estudo como evidência mais antiga de vida microbiana no planeta. A casa começou a ruir há três anos, quando Aivo Lepland e colaboradores começaram a examinar as amostras com microscópios eletrônicos e ver que não havia nelas nem sinal de grafite associado à apatita.
"Trouxemos a questão a Mojzsis e ele disse que queria ver esses resultados publicados. Agora temos uma publicação, preto no branco", contou Arrhenius.
"Houve muita coisa escrita sobre as rochas de Akilia, e a interpretação de que elas abrigam traços da vida mais antiga da Terra foi destacada em vários livros de ciência", disse Lepland à Folha. "Essas afirmações requerem evidências científicas sólidas que infelizmente parecem faltar."
Mesmo que o grafite existisse, outros estudos sobre as rochas de 3,8 bilhões de anos já sugeriam que o carbono pudesse ter outra origem, que não fosse biológica.
Ao mesmo tempo que dizem lamentar, Lepland e outros pesquisadores afirmam que ainda há esperanças de encontrar a assinatura química dos primeiros seres vivos de 3,8 bilhões de anos atrás. Rochas de Isua, Groenlândia, e Barbeton, na África do Sul, são promissoras. "Estamos trabalhando nisso", diz o pesquisador.
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