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Domingo, 02 de março de 2003 20h47
Papangus anima Carnaval de Pernambuco

FÁBIO GUIBU
da Agência Folha, em Bezerros

Uma festa diferente, feita por foliões mascarados que cobrem seus corpos e mãos com luvas e lençóis em pleno verão nordestino, foi a principal atração deste domingo no Carnaval de Pernambuco.

A folia dos papangus, como são chamados os mascarados, acontece há quase cem anos em Bezerros, cidade que, apesar da seca, ganhou a fama de ser a "Veneza do Agreste" em virtude da semelhança entre as festas, baseadas no anonimato de quem participa.

Em Bezerros, as máscaras só são retiradas à noite, quando a brincadeira é substituída pelos shows gratuitos que animam os foliões até a madrugada.

O ponto alto da folia é o desfile que antecede o concurso dos mascarados. Animados por orquestras de frevo, cerca de 5.000 papangus, segundo os organizadores, percorrem cerca de três quilômetros de ruas até a apoteose.

No desfile, blocos como "As bestas do apocalipse", formado por anônimos fantasiados de Saddam Hussein (ditador do Iraque), George W. Bush (presidente dos EUA) e Tony Blair (primeiro-ministro britânico), jogam vôlei com uma réplica do globo terrestre e ironizam as crises políticas com bom humor.

Outros preferem manter a tradição e utilizam as fantasias que fizeram a fama dos papangus: máscaras ovais, brancas, com perucas cacheadas, panos coloridos cobrindo o corpo, luvas brancas e castanholas nas mãos.

Segundo o mais antigo artesão da cidade, Amaro Arnaldo do Nascimento, 58, o Lula Vassoureiro, a tradição dos papangus em Bezerros surgiu em 1905.

Naquela época, disse, os foliões usavam capuzes feitos com pernas de calças cortadas. Os mascarados desfilavam nas ruas e ganhavam ovos, frutas e aves como presentes da população.

A partir de 1950, as máscaras passaram a ser confeccionadas com papel. E os foliões começaram a ser recebidos nas casas dos amigos com um prato de angu (polenta mole) com carne.

Sem ser reconhecidos, os mascarados aproveitavam o anonimato para comer o angu várias vezes no mesmo lugar. Esse costume batizou os papangus.

A tradição continua até hoje, mas as máscaras ganharam novas características e passaram a representar uma importante fonte de renda para os moradores.

A Prefeitura de Bezerros estima que 10% da população _cerca de 6.000 pessoas_ se envolva na fabricação artesanal das máscaras para a venda durante o Carnaval.

Uma peça de rosto inteiro, confeccionada com papel e cola e pintada com várias cores, era vendida neste domingo na festa por R$ 7.

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