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Quarta-feira, 05 de março de 2003 07h39
Efeito especial deixa o samba das escolas do Rio em 2º plano

da Folha de S.Paulo, no Rio

A grandiosidade dos carros foi o grande espetáculo nos desfiles do Grupo Especial do Rio.

No sambódromo, houve quem levitasse, alegorias que emitiam guinchos ou exalavam cheiro de café, mergulhadores em tanques de vidro, engenharia para movimentar carros gigantescos. Foi um ano em que sobraram efeitos especiais, tecnologia e luxo nos desfiles da passarela do samba.

Mas o resultado final pareceu reproduzir o atual cenário de cobertor curto das escolas. Faltaram dois ingredientes essenciais: bons sambas e animação. Poucos refrãos tiveram o coro do público como acompanhante empolgado, caso da Mangueira e da Beija-Flor, que desfilaram na segunda.

Em um caminho que parece sem volta no sambódromo, muitas vezes a platéia assistia a tudo sentada, aplaudindo um ou outro quadro ou personagem -como se estivesse diante da TV e não no maior desfile de escolas de samba.

Um dos efeitos especiais mais aplaudidos foi o da comissão de frente da Mangueira, quando o dançarino Carlinhos de Jesus, caracterizado como Moisés no enredo sobre os dez mandamentos, simulou subir aos céus para falar com Deus. O sambódromo já vira um astronauta voando na Grande Rio de Joãosinho Trinta, mas não um número de levitação.

Os dançarinos da comissão de frente foram aprender com o ilusionista Issao Imamura, de São Paulo, técnicas de ilusionismo.

Carlinhos de Jesus teve de emagrecer 6,5 kg para conseguir a força muscular e a imobilidade necessárias durante o efeito especial. Ele gastou três meses para aprender a fazer o truque. Os ensaios começaram em São Paulo, para não chamar a atenção das concorrentes no Rio.

Na Mocidade Independente, o enredo-campanha sobre doação de órgãos trouxe, em um carro alegórico, quatro mergulhadores submersos em aquários, com aparelhos de mergulho, representando órgãos em conservação.

Ousadias

O presidente da Beija-Flor, Aniz Abrahão David, disse que a passarela do samba deve mudar para acompanhar a evolução técnica das escolas. "A ousadia de escolas como a Beija-Flor deve ser acompanhada", declarou. Para Abrahão David, uma das maiores mudanças nas escolas nos últimos anos foi na iluminação.

Na Beija-Flor, o primeiro carro alegórico era ligado a outro, fazendo uma espécie de diálogo entre a luz e as trevas.

O primeiro, intitulado Paraíso Celestial, era de tons claros. No segundo, Apocalipse, as cores escuras e fortes, como o preto e vermelho, predominavam. Um dragão emitia gritos, demonstrando o suplício dos pecadores. O abre-alas tinha 7.000 litros de água, usados para simular uma cachoeira.

"Já tivemos homem voando no sambódromo. Ter carros duplos agora é uma evolução natural", disse Neguinho da Beija-Flor, puxador de samba da escola.

Adesão da Mangueira

Neste ano, a tradição de carros grandiosos foi seguida pela Mangueira. Normalmente, a escola é adepta de alegorias menores. O abre-alas verde-e-rosa, com três partes, tinha 87 metros de comprimento e representava o império dos faraós egípcios. Na frente, uma corrida de bigas. Logo em seguida, o faraó e, por último, uma réplica da pirâmide.

Tanta inovação por pouco não causa problemas para a escola, que teve um pouco de dificuldade para entrar na dispersão.

A apuração das notas das escolas do Grupo Especial acontece hoje, a partir das 15h30, no sambódromo.



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